agosto 08, 2004

Buscando

É para mim difícil dissociar a arquitectura, do quotidiano que habitamos diariamente. Se o trabalho do artista reflecte, em alguma maneira, as suas idiossincrasias e a sua forma de ver o mundo, é também moldado pelo seu quotidiano. Se tomou ou não o café de manhã, se estava muito ou pouco trânsito a caminho da loja das tintas, se o sexo correu bem ou mal no dia anterior, tudo isso pesa quando o artista enfrenta a tela depois do almoço. Dependendo do grau de comprometimento que ele assume com a obra, ou mesmo o grau de entrega, esta pode transparecer mais ou menos o seu dia-a-dia. A arte que não reflecte o quotidiano não é, necessariamente, uma arte menor. Medidas bem as distâncias, não se pode dizer que o projectar do arquitecto seja muito diferente disto. Projecta-se com o que se sabe e com o que se quer. Uma são as nossas certezas, a outra são as nossas dúvidas. As nossas certezas podem ser de vária ordem: físicas, metafísicas, sociais, hierárquicas, familiares, endógenas. As nossas incertezas nascerão do acto projectual, e serão procuradas utilizando as nossas certezas. Enquanto que as certezas são como que a língua que utilizamos, o modo de nos expressarmos, as incertezas estão presentes no nosso quotidiano. O acto projectual é apenas a nossa maneira de as procurarmos.

Publicado por Nuno em agosto 8, 2004 12:25 AM
Comentários