agosto 13, 2004

“...uma encicolpédia para um autodidacta...”

“(...) O espírito de Palomar oscila entre dois impulsos contrastantes; aquele que tende para um conhecimento completo, exaustivo, e que apenas poderia ser satisfeito experimentando todas as qualidades de queijos; e o que tende para uma escolha absoluta, para a identificação do queijo que é o seu, um queijo que certamente existe, mesmo que ainda o não o saiba reconhecer (não saiba reconhecer-se nele). (...) Uma sombra de cumplicidade viciosa paira sobre o ambiente: o requinte gustativo e sobretudo o requinte olfactivo conhecem os seus momentos de abandono, de fácil sedução, nos quais, os queijos, sobre os tabuleiros, parecem oferecer-se como se estivessem sobre os divãs de um lupanar. Um esgar perverso aflora no regozijo com que se avilta o objecto da gula, atrubuindo-lhe epítetos infamantes: crottin, boule de mione, bouton de culotte.
Não é este tipo de conhecimento que o senhor Palomar é o mais dado a aprofundar: no seu caso, bastar-lhe-ia establecer a simplicidade de uma relação física directa entre homem e queijo. Mas se ele em lugar dos queijos vê nomes de queijos, contextos de queijos, significados de queijos, psicologias de queijos, se ele - mais do que saber - pressente que atrás de cada queijo existe tudo isto, sucede que a sua relação se torna muito complicada.
A casa dos queijos representa para Palomar o mesmo que uma encicolpédia para um autodidacta; poderia memorizar todos os nomes, tentar uma classificação de acordo com as formas - forma de sabonete, de cilindro, de cúpula, de bola - de acordo com a concistência - seco, amanteigado, cremoso, em estratos, compacto - (...) mas isto não o aproximaria de um só passo do verdadeiro conhecimento e de imaginação em conjunto, e só na base dessa experiência poderia establecer uma escala de gostos e preferências e curiosidades e exclusões.”
in: Palomar, italo calvino

No final desta história, apesar do esforço feito por Palomar em organizar os queijos no seu bloco de notas - por nomes, formas, cores.... e perante a impaciência de uma jovem vendedora de queijos, “O pedido elaborado e guloso que tinha intenção de fazer escapa-se-lhe da memória; balbuceia; refugia-se no mais óbvio, no mais banal, no mais publicitado, como se os automatismos da civilização de massas não esperassem mais do que aquele momento de incerteza para o terem de novo sob o seu poder.”


Se o queijo da Mari for a relação que o homem tem com a maior parte das “coisas”. O território que se pretende julgar, melhorar, potenciar... é o queijo que se conhece... é o queijo que o seu habitante já comeu, o que gostou mais, o que pôde experimentar; assim como a sua casa; a sua relação com a comunidade; a sua atitude cívica.
Para melhorar (ou mesmo introduzir) o habitar público ou privado, deste território (de um território) talvez a “encicolpédia para um autodidacta” não sirva: se calhar não serve para nada. O problema do habitar no privado ou em comunidade está amarrado ao conhecimento vivido pelo habitante... e será resolvido quando esse conhecimento for melhor... talvez a Mari possa dar a conhecer alguns queijos; os mais simples para começar...um ou outro que ela aprecie na sua memória. De qualquer modo o Sr Palomar também não resiste à tentação da encicolpédia.

Publicado por Filipe Silva em agosto 13, 2004 12:26 AM
Comentários

Subtil, subtil...

Afixado por: G em agosto 16, 2004 12:45 AM